AS TRANSFORMAÇÕES DA REPRESENTAÇÃO SOCIAL DO NEGRO NO LIVRO DIDÁTICO E SEUS DETERMINANTES

 

Ana Celia da Silva – UNEB/UFBA

 

 

O presente trabalho tem por objetivo investigar a existência de transformações na representação social do negro nos textos e ilustrações do livro didático de Língua Portuguesa de Ensino Fundamental de 1º e 2º ciclos e os fatores determinantes dessas transformações. Os livros que apresentaram maior freqüência de transformações das representações foram analisados qualitativamente. As unidades de registro selecionadas foram os textos e as ilustrações dos livros. A categorização dos dados apoiou-se em indicadores estabelecidos a partir dos dados de duas pesquisas realizadas anteriormente, sobre a identificação e correção de estereótipos nos livros didáticos já mencionados. Uma segunda etapa da investigação, em fase de conclusão, constitui-se de entrevistas aos autores e ilustradores dos livros analisados, para identificar os fatores que determinaram as transformações encontradas nas representações identificadas.

Esse trabalho tem como objeto de investigação os textos e ilustrações do livro didático de Língua Portuguesa de Ensino Fundamental e os seus respectivos autores. Nele investigo a existência de uma transformação da representação do negro no livro didático na década de 90, bem como os fatores determinantes dessa transformação, tendo em vista que em investigações que realizei na década de 80, essa representação foi identificada, em grande parte, pela marca do estigma e estereotipia.

O livro didático pela importância que lhe atribui o professor no processo de ensino aprendizagem e pelo papel que exerce, especificamente junto aos alunos das classes populares, constituindo-se muitas vezes no seu único recurso de leitura informativa, formativa e lúdica, é objeto das minhas investigações, tanto pela importância do seu uso de uma forma crítico-reflexiva, que o pode transformar em um instrumento gerador de consciência crítica, como por ser também, um veículo de representações hegemônicas, que uma vez internalizadas, passam a constituir-se no senso comum. Essas representações podem trazer prejuízos à formação da identidade étnico-racial, do autoconceito e da auto-estima, com conseqüências negativas para a aprendizagem e interação dos sujeitos, na sociedade em que estão situados.

Nesse sentido essa investigação pretende responder às seguintes questões:

– O livro didático de Língua Portuguesa de Ensino Fundamental, tem apresentado nos últimos anos uma transformação da representação do negro nos seus textos e ilustrações?

– Que fatores foram determinantes para os autores, para a transformação da representação do negro nos seus textos e ilustrações?

O interesse pelo objeto de investigação surgiu a partir da minha atuação profissional como professora e depois orientadora educacional de Ensino Fundamental, onde apreendi a discriminação dos alunos de pele clara aos alunos negros, a auto-rejeição do aluno negro e a incapacidade do professor de lidar com essa problemática social na sala de aula.

A militância no Movimento Negro Unificado, no grupo de trabalho de educação Robson Silveira da Luz, oportunizou as condições para estudos específicos iniciais, da problemática social do negro e a aquisição de estratégias de atuação junto a professores e alunos.

Essas experiências levaram a construção de duas pesquisas sobre essa temática, uma delas publicada no ano de 1995 pela UFBA com o título A discriminação do negro no livro didático.

Acredito que identificar transformações na representação social do negro no livro didático, pode constituir-se em uma estratégia de multiplicação dos fatores dessa transformação e de reivindicação de políticas públicas nesse sentido, na educação.

Investigar a existência de uma representação mais próxima do real, nos coloca uma questão. Qual seria a realidade concreta do povo negro no Brasil, uma vez que existem múltiplas visões de realidade que constituem o senso comum que partilhamos com os outros membros do nosso grupo, nas rotinas normais da vida cotidiana?

A representação do negro, baseada, na maioria das vezes no senso comum, pode estar sofrendo uma transformação a partir de outras visões de realidade e de solicitações de ordem econômica, política e social.

São realidades que aparecem “como campos finitos de significação”, enclaves dentro da realidade dominante, marcadas por significados e modos de experiência delimitados, que podem produzir tensão ou transe na consciência, fragmentando a representação hegemônica e permitindo a sua transformação (Berger/Luckman, 1076:43).

A crença de que as representações sociais apresentam transformações, baseia-se em grande parte, na afirmativa de que os “universos socialmente construídos modificam-se, transformados pelas ações concretas dos seres humanos” (Berger/Luckman, op cit:154) e muitas ações na sociedade brasileira, vêm concorrendo para essas transformações.

Moscovici criou o termo representações sociais a partir da sua obra La Psychanalise, son image e son public em 1961. Na quarta década de existência de estudos sobre representação social, a terceira e o início da quarta, são marcados por obras que confirmam a existência desse campo de investigação, tais como as de Jodelet (1984, 1989), Ibanez (1988), Doise (1990, 1993), Vala (1993), Sá (1993, 1996), Abric (1994), Wagner e Elezabarrieta (1994), entre outros.

Existe no Brasil um movimento acadêmico voltado para os estudos das representações sociais, que vem desenvolvendo-se no sentido de uma familiarização com o seu conceito, análise crítica e produção científica. Duas importantes iniciativas são as publicações das obras brasileiras de Spink, M. G (Ed) O conhecimento do cotidiano: as representações sociais na perspectiva da Psicologia Social (São Paulo, Brasiliense, 1993) e a de Guareschi, P & Jovchelavitch, S (Eds) Textos em representações sociais (Petrópolis, Vozes, 1994).

Moscovici considera importante saber por que se produzem as representações sociais, uma vez que as mesmas contribuem exclusivamente para os processos de formação de condutas e de orientações das comunicações sociais. No que tange a representação do negro, especificamente nos materiais pedagógicos, ao penetrar no nosso universo, relacionando-se e permutando entre si as propriedades daquele e deste (Moscovici, 1978) não se torna próximo e familiar, como crê o autor citado, uma vez que essa representação é modelada, construída a partir de estereótipos, preconceitos, juízos e imagens, atribuídas por nosso senso comum, que a torna passível de afastamento e recalque. O mesmo ocorre com a representação social dos loucos (Jodelet, 1991) e de outros grupos distintos considerados desiguais.

A representação social do negro pode sofrer transformações, a partir de um novo conceito formado através de uma nova imagem, opiniões, visibilidade positiva, veiculadas nos meios de comunicação, nos currículos e materiais pedagógicos, nas pesquisas e publicações, entre outras.

Identificar as transformações desse real e os elementos que as determinam, tem como pressuposto identificar quais os conceitos construídos e tornados senso comum, foram transformados na prática social e que fatores sociais os determinaram.

Para identificação e tratamento dos dados, escolhi a abordagem qualitativa, centrada no tratamento metodológico da dimensão qualitativa da realidade social (Demo, 1995). Utilizei a análise de conteúdo para selecionar os livros didáticos de Língua Portuguesa de Ensino Fundamental de 1º e 2º ciclos (primeira à quarta série).  Esses livros, em número de 15, foram editados no período de 1994 a 1998 e adotados por professores de escolas públicas estaduais e municipais da cidade de São Carlos, em São Paulo. Os que apresentaram uma maior freqüência de transformações da representação do negro, em número de 05, foram submetidos a análise, catalogados e categorizados e os seus autores serão entrevistados numa segunda etapa, para identificar os fatores que determinaram as transformações identificadas.

A análise dos dados revelou mudanças significativas na representação, comparativamente com os livros analisados na década de 80, no que tange à sua humanidade, cidadania, status sócio econômico e interação com outras raças/etnias nos grupos sociais. Por outro lado o negro continua em minoria nas ilustrações, apresenta-se assimilado e constitui-se na representação, humano e cidadão abstrato, universalista, sem referências que o distinga enquanto portador de etnia, cultura e raça distintas.

A partir de indicadores baseados em referências de pesquisas por mim realizadas anteriormente, constituí as seguintes categorias de análise dos dados:

Humanização – na qual os personagens negros foram ilustrados sem caricatura, com traços fisionômicos específicos. Num total de 187 representações o negro apareceu caricaturado apenas 26 vezes nos livros Festa das Palavras, cartilha, Descobrindo & Construindo, 1ª série e Da Palavra ao Texto, volume 1 e 2. A humanização também se traduziu na ilustração e descrição do contexto familiar, com a presença de cinco famílias negras, no livro Festa das Palavras, cartilha, Porta de Papel, cartilha, bem como pela presença de 15 personagens com nomes próprios nos textos dos livros Festa das Palavras, livro 1, Porta de Papel, cartilha, Porta de Papel, 4ª série, Da Palavra ao Mundo, livro 1, Da Palavra ao Mundo, 4ª série e Viva a Vida, 4ª série.

Com status econômico de classe média – esse status foi considerado como parâmetro de classe social, para a maioria dos personagens negros, descritos e ilustrados com características dessa classe social, num total de 216 freqüências.

Freqüência à escola – caracteriza essa categoria a ilustração e descrição de crianças e jovens negros na sala de aula, indo à escola e estudando em casa. Essa categoria obteve 10 freqüências nos livros Da Palavra ao Mundo, 4ª série, Porta de papel, cartilha, Festa das Palavras, 1ª série, Porta de Papel, 2ª série, Eu gosto de ler e Escrever, cartilha e Porta de Papel, 4ª série.

Em interação com outras raças/etnias – a interação de crianças, jovens e adultos negros com outras raças/etnias, tais como o branco e o amarelo, foi ilustrada e descrita 27 vezes nos livros Porta de Papel, cartilha, Eu Gosto de Ler e Escrever, cartilha, Da Palavra ao Texto, 1ª e 2ª série, Porta de Papel, cartilha e 2ª série, Festa das Palavras, 1ª série e da Palavra ao Mundo, 4ª série.

Prática de atividades de lazer – a representação da criança negra descrita e ilustrada como o filho da empregada, o moleque de rua e o trabalhador braçal, identificado nas pesquisas anteriores, cedeu lugar a representação de uma criança também com direito ao lazer. Ela foi ilustrada praticando diversas atividades de lazer tais como, brincando de roda, pescando, empinando arraia, ouvindo disco, assistindo televisão, fazendo piquenique, jogando bola, dançando, brincando com patins, brincando com animais, fazendo clubinho, 43 vezes nos 05 livros analisados.

Prática de boas ações – o estereótipo de mau traduzido na representação do negro praticando más ações, está bastante restrito nos livros analisados, dando lugar ao negro praticando também boas ações, na maioria das vezes. Por outro lado, crianças brancas foram ilustradas e descritas praticando travessuras, bem como também crianças negras. As crianças foram ilustradas e descritas praticando boas ações 8 vezes nos livros Viva Vida, 4ª série, Da Palavra ao Texto, 1ª série, 1ª série, Porta de Papel, cartilha, Festa das Palavras, 1ª série, Da Palavra ao Mundo, 1ª série.

Localização no espaço em 1º, 2º lugar e no centro – representa essa categoria ilustrações de crianças, jovens e adultos negros, situados em primeiro, segundo lugar e no centro, nos grupo sociais representados nos livros Eu Gosto de ler e Escrever e Viva Vida, 4ª série, Porta de Papel, cartilha, 2ª e 4ª série, Da Palavra ao Texto, 1ª série e Da Palavra ao Mundo, 4ª série.

Não estigmatizado a papéis e funções considerados subalternos – a diversificação de papéis e funções do negro começa a aparecer no livro didático. Os papéis considerados subalternos começam a ser representados por negros e brancos. Por outro lado, papéis que eram exclusivos do branco na representação, começam a ser representados por personagens negros. Essa categoria teve 32 freqüências nas suas subcategorias pai e mãe negros (Porta de Papel, cartilha), avó negra (Festa das Palavras, livro 1), herói negro (Porta de Papel, 4ª série), trabalhador braçal não negro (Da Palavra ao Mundo, 1ª série), doméstica não negra (Porta de papel, cartilha e 2ª série), família branca pobre (Da Palavra ao Mundo, 4ª série), mulher negra não doméstica (Porta de Papel , cartilha), mulher negra tratada como senhora (Festa das Palavras, 1ª série).

Adjetivação positiva – essa categoria ainda foi pouco freqüente nos livros analisados. Os personagens foram adjetivados positivamente como “batalhador” (Viva Vida, 4ª série), trabalhador, corajoso, cabelos cor de ébano (Da Palavra ao Texto, 2ª série), cidadão (Da Palavra ao Mundo, 4ª série), bom estudante (Porta de Papel, 4ª série).

 

 

Considerações finais

 

A representação social do negro nos livros da década de 90, analisados, apresenta transformações significativas, que irão contribuir para a construção e reconstrução da identidade étnico/racial, auto-estima e autoconceito da criança negra, uma vez que nos livros elas irão se ver mais, e de forma positiva. Contudo a equalização dessas representações, a ausência do cotidiano, experiências e cultura distintas do negro nesses livros, nos faz pensar até que ponto os atributos de humanidade e os direitos de cidadão presentes nessas representações, origina-se do reconhecimento do valor e da aceitação do negro com as suas diferenças étnico, culturais e fenotípicas, ou sua humanidade e direitos de cidadania lhes foram atribuídos, “porque são iguais”, fazem parte do “povo brasileiro”, abstrato, sem distinções. Esse reconhecimento poderia implicar numa atitude etnocêntrica do reconhecimento do outro a partir da sua evolução para o modelo considerado ideal, o modelo hegemônico eurocêntrico.

Na segunda etapa da investigação, em processo, onde através de entrevistas, busco identificar os fatores determinantes dessas transformações, essas questões poderão ser esclarecidas. No entanto, o valor dessas transformações para a criança negra é incontestável, ainda que tenhamos de trabalhar ainda mais, para que autores e ilustradores, reconheçam e representem as diferenças étnico-culturais, não como desigualdades, mas como contribuição para o enriquecimento da nação.

 

Livros que apresentaram maior freqüência de representações positivas do negro, nas suas ilustrações e textos:

 

Porta de papel, cartilha, 2ª e 4ª série

Autores: Angiolina D. Bragança/Isabella Carpaneda/Regina Iára M. Nassur

Editora FTD, 1992, 1993 e 1996, respectivamente.

 

Viva Vida, 4ª série

Autores: Angiolina Bragança/Isabella Carpaneda.

Editora FTD, 1994.

 

Festa das palavras, 1ª série

Autor: Dirce Guedes de Azevedo

Editora FTD, 1992

 

 

Referências bibliográficas:

 

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